17/01/2015

Sinto sua falta

Eu sinto sua falta debaixo do chuveiro. A água cai e eu não sei o que é água, cloro ou lágrima. Não chegamos a tomar banho juntos. Sinto falta do que não aconteceu. Na terra, no céu, no ar também.

O tempo não parou. Cada batida do ponteiro dói. Eu fiquei aqui, você sepultou a esperança que velo no sétimo dia. Não vou te ligar por causa dos impostos, valem mais do que meus sentimentos. Já inventaram aplicativos para facilitar a comunicação, mas não para que o outro verdadeiramente se importe com o que digo.

Parece se importar quando pergunta como foi o meu dia. Como um amigo que não foi. Como existiu sem rótulo? Nunca foi amigo nem namorado. É ex o quê? Está no passado ou no presente? Não preciso ser astróloga para saber que não estará no futuro.

Sei que não preciso me prender. Estou presa por vontade, não a você que já foi, mas ao cursor, às músicas, aos filmes, ao pijama, aos livros de cabeceira. Aos chocolates, refrigerantes e algumas lembranças. Lembrança de você dizer que está passando da hora de cortar as guloseimas.

Sento no sofá e ligo a TV. Em São Paulo chove, falta luz, há uma seca maior do que a daqui. Será que as janelas estão fechadas? O que você fez para jantar? Paredes pintadas de verde, a bagunça em cima da cama ocupando o meu lugar. Eu seria feliz nesses cômodos.

As ruas daqui projetam filmes: Você me esperando na esquina, você me colocando no banco do passageiro, pois eu estava de porre. Você se perfumando, eu vestindo sua camiseta. Seu cheiro em mim. Você segurando a minha mão no restaurante, você distante olhando o celular. Você com o meu violão empunhado, o cabelo grande e a barba por fazer. Eu me vi querendo tanto...

Ainda é 2014, não adianta o calendário me dizer o contrário. Eu sinto sua falta e sinto falta de mim, de quem eu era antes de você, de quem eu era antes do outro. Eu me perdi em algum ponto, perdi o meu coração e a minha cabeça. É no meu canto que procuro me encontrar.

Você está bem, você não me esqueceu, você não sente saudade. Você não me amou, eu não amei você. Encaixamos bem nossos corpos, não nossas vidas. Eu te disse sim, você me disse “tanto faz”. Não foi fácil. Foi ego, foi dor, não serviu, mas não me impede de sentir sua falta.

Levo comigo a dúvida entre olhar seus olhos ou a lua. Levo comigo meus pés suspensos pelo seu abraço forte e seu sorriso largo. Levo comigo os acordes sertanejos desafinados. Levo até andar numa via de mão-dupla. Levo até alguém que seja fácil e bom. Até esse alguém que eu não preciso convencer que valho a pena. Ele não terá dúvidas, vai saber que sou eu. Que sou apenas eu.

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